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Aldemir Martins RECAPITULANDO DO EVANGELHO DE JESUS Capítulo VIII Itens 8 a 21 |
VERDADEIRA PUREZA. MÃOS NÃO
LAVADAS
Houve ocasião em que os escribas
e fariseus que tinham vindo de Jerusalém indagaram de Jesus por que seus
discípulos violavam a tradição dos Antigos, já que não lavavam as mãos ao
tomarem suas refeições. Como resposta, Jesus argumentou como, por sua vez, eles
violavam os mandamentos de Deus em honra a ordenações humanas. Mandamentos como
“Honrai vosso pai e vossa mãe” e “Aquele que disser
palavras injuriosas a seu pai ou à sua mãe que seja punido com severidade” não
eram contemplados. Enquanto eles contrapunham com uma leviana ordenação - Todo aquele que disser ao seu pai ou à sua mãe:
“toda oferenda que faço a Deus vos é útil”, pois agiam de má fé, não cumprindo
suas obrigações com seus ascendentes.
Nessas ocasiões, Jesus procurava explicar que
era necessário prudência no falar, que o que sai da boca parte do coração e os
pensamentos impuros, a maledicência são responsáveis pelos crimes, pelas
desgraças do mundo. Não as mãos não lavadas antes da refeição, como acreditavam
os fariseus.
Ao ouvir de seus discípulos que
os fariseus haviam se escandalizado com sua prédica, Jesus respondeu: “Toda
planta que meu Pai celestial não plantou será arrancada”. Eles se comportam como cegos, podem vir a cair
no fosso.
Enquanto isso, um fariseu
pediu-lhe que jantasse em sua casa. Jesus encaminhou-se para lá e, sem lavar as
mãos, sentou-se à mesa, o que causou um estranhamento por parte do anfitrião, motivando
o comentário imediato de Jesus. O cuidado com que os fariseus limpam o exterior
do copo e do prato não deveria ser aplicado ao interior do coração de cada um,
onde cresce a semente da iniquidade? Então, “Aquele que fez o exterior não fez
também o interior?”.
A esta altura, os judeus haviam
negligenciado os verdadeiros mandamentos de Deus, apegando-se à prática dos
regulamentos estabelecidos pelos homens. Como era mais fácil observar os atos
exteriores do que se reformar moralmente, ‘lavar as mãos do que limpar o
coração’, os homens se iludiram e se convenceram de que estavam quites com Deus
que não pedia mais que isso. E permaneciam como eram, intimamente estacionados.
Foi o que veio a acontecer com a
doutrina moral do Cristo, passada a segundo plano, o que determinou a crença
por parte dos cristãos, tal como aconteceu aos judeus, de que sua salvação
estava assegurada pelas práticas exteriores em detrimento da Moral.
Sabemos que a finalidade da religião
é encaminhar o homem a Deus. Se este só chega a Deus quando está perfeito,
então, a religião que não torna o homem melhor não atinge seu escopo. E
seguramente é falsa ou falseada em seu princípio a religião que aceita qualquer
prática voltada para o mal. Podemos afirmar também que apenas a crença na
eficácia dos sinais exteriores é nula se não impede o crime generalizado, o roubo,
a calúnia, o adultério, qualquer tipo de crime. Ela só gera pessoas supersticiosas,
maldosas, fanáticas, nunca homens do bem.
ESCÂNDALOS. SE VOSSA MÃO É UM
MOTIVO DE ESCÂNDALO, CORTAI-A.
Palavra de uso comum, escândalo,
hoje, significa aquilo que é causa de erro, ou que resulta em erro; indignação
provocada por um mau exemplo; desordem, tumulto, cena, escarcéu; ou grave acontecimento
que abala a opinião pública; ou ainda, fato imoral revoltante. O escândalo está
menos na ação em si mesma e mais no reflexo que ela provoca, na explosão de
comentários que ela determina. Há até certa tendência em se abafar um
escândalo, para se preservar a figura de seu autor – os “sepulcros caiados” a
que Jesus se referia: ‘vasos limpos por fora, sujos por dentro.’
Em
textos evangélicos, a acepção da palavra escândalo é sempre mais geral e, por
isso, nem sempre é bem entendida. Não é somente aquilo que ofende a
consciência, é tudo o que resulta dos vícios e das imperfeições dos homens,
todo efeito mau, de pessoa para pessoa, com ou sem repercussão – o escândalo
como resultado efetivo do mal moral.
Em suas prédicas, Jesus dizia que era
necessário que houvesse escândalos no mundo, uma vez que, sendo imperfeitos, os
homens eram inclinados a fazerem o mal e as más árvores dão maus frutos. Por
estas palavras, devemos entender que o mal é uma consequência da imperfeição
dos homens, e não que para eles haja obrigação para praticá-lo.
Isto
é necessário porque, como os homens estão em expiação sobre a Terra, punem a si
mesmos pelo contato com seus vícios, sendo assim suas primeiras vítimas. Com a
continuidade, terminam por entender seus inconvenientes. Quando estiverem
cansados de padecer no mal, descobrirão a cura no bem. Portanto, a reação
desses vícios serve, ao mesmo tempo, de castigo para uns e de provas para
outros. É deste modo que Deus faz emergir do mal o bem.
Se
isto é a realidade, o mal sendo necessário, irá durar para sempre, como arma de
luta do Pai? Isto seria se as situações se repetissem sempre no mesmo patamar.
Desde que diminuam os culpados e venham a deixar de existir, desaparecerá a
necessidade de provas, de castigos. Imaginemos a Humanidade toda nos patamares
superiores, todos envolvidos com o bem. Este é o estado dos mundos avançados,
onde o mal não existe e será o da Terra, quando tiver avançado na medida
suficiente. Mas há um aspecto ainda não tocado nessas considerações: enquanto
muitos mundos evoluem, outros se formam, abrigando espíritos primitivos, com a
finalidade de servir de habitação, de exílio, ou de lugar expiatório para os
obstinados no mal.
Consideremos
agora, o espírito através do qual o escândalo surgiu. O mal sendo sempre o mal,
aquele que inconscientemente serviu de instrumento para a justiça divina, cujos
maus instintos foram utilizados, não fez por isso menos mal e deve sofrer
punição[i]. Como exemplo, podemos apontar o filho ingrato
como uma punição ou uma prova para o pai que o sustenta, porque esse pai talvez
tenha sido um mau filho que fez sofrer seu pai, e que sofre a pena de talião. O
filho, por sua vez, não deixa de ser culpado e deverá ser castigado em seus
próprios filhos ou de outro modo.
Resta
comentar a figura enérgica, usada nesses tipos de comentário e que não pode ser
tomada ao pé da letra: “Se vossa mão é uma causa de escândalo, cortai-a”. Simplesmente
significa que é necessário destruir em si toda causa de escândalo; arrancar do
coração todo sentimento impuro e toda tendência para o vício; e aponta para a
máxima: valeria mais para uma pessoa ter tido a mão cortada, do que essa mão
lhe ter servido de instrumento para uma má ação. Jesus, embora expressando-se por
alegorias, não falou coisas absurdas. Muitos foram os que apreenderam o sentido
profundo de suas palavras. O Espiritismo está aí para nos ajudar nessa tarefa.
Há no capítulo que finalizamos hoje dois textos muito bons de Espíritos instrutores que complementam lindamente o texto estudado.
Intitulamse: Deixai vir a mim as criancinhas/Bordéus/1861 e
“Bem-aventurados aqueles que teem os olhos fechados” (Vianney, cura
d´Ars/Paris/1863).
NOTA
– Quando um sofrimento não é consequência dos atos da vida presente, necessário
se torna pesquisar sua causa numa vida anterior. Aquilo que chamamos de
‘caprichos da sorte’ são os efeitos da justiça de Deus. Ele não age com
arbitrariedade. Ele quer que entre a falta e a pena, haja sempre uma correlação.
Se, bondosamente, deitou um véu de esquecimento sobre nossos atos passados,
põe-nos sobre o caminho, dizendo-nos: Quem matou pela espada, morrerá pela
espada”, o que significa: “Sempre se é punido naquilo em que pecou”. Se alguém
está aflito pela perda da vista, é porque a vista foi para ele causa de queda,
ou foi causa da perda da vista num outro, por excesso de trabalho imposto, por
maus tratos, por falta de cuidado. E suporta a lei de talião. Ele mesmo, em seu
arrependimento, pôde escolher essa expiação, aplicando a si próprio estas
palavras de Jesus: “Se vosso olho vos é um motivo de escândalo, arrancai-o”.