sexta-feira, agosto 17, 2007

Marielza Tiscate

Um momento sonoro para a completa fruição deste nosso encontro de hoje

quarta-feira, julho 18, 2007

ENRICO BIANCO NATUREZA MORTA

Muitas vidas perderam-se ontem, no acidente aéreo, em Congonhas, São Paulo.
Isto mal saíamos do choque com o terremoto no Japão.

É importante que nos unamos para uma prece direcionada aos que desencarnaram, aos que ficaram vivos em sofrimento e aos parentes e amigos que os esperavam e sofrem com o horror da situação inesperada.

Façamos a prece:

Espíritos bem amados, anjos guardiães, vós a quem Deus, em sua infinita misericórdia, permite velar pelos homens, sede protetores das vítimas dos acidentes havidos nesses ultimos dias.

Dai-lhes força, coragem e resignação; inspirai-lhes tudo o que é bom e detende-os na inclinação do mal; que vossa doce influência penetre suas almas de modo a se sentirem amparados. Aos que desencarnaram que sejam recolhidos pelos socorristas e que recebam em tempo o atendimento e a proteção necessária. Conheceis a necessidade de cada um. Que elas sejam satisfeitas segundo a vontade de Deus.
***
Deixo-lhes hoje um bom texto para reflexão:
PETIÇÃO E RESPOSTA
Do livro Rumo Certo
(Emmanuel & Francisco Cândido Xavier)

Entre o pedido terrestre e o Suprimento Divino, é imperioso funcione a alavanca da vontade humana, com decisão e firmeza, para que se efetive o auxílio solicitado.
Buscando as concessões do Céu, desistamos de lhes opor a barreira dos nossos caprichos próprios.

Suplicamos no mundo: Senhor, dá-nos a paz.
Se persistimos, no entanto, a remoer conflito e ressentimento, cozinhando mágoas e esquentando desarmonia, decerto que a tranqüilidade só encontrará caminho para morar conosco, quando tivermos esquecido as farpas da dissensão.
Imploramos: Senhor, dá-nos saúde.
Se continuarmos, porém, acalentando sintomas e solenizando quadros mentais enfermiços, é indispensável que o remédio só terá eficácia, em nosso auxílio, quando estivermos decididos a liquidar com as idéias de lamentação e doença.
Pedimos: Senhor, dá-nos prosperidade.
Mas se teimamos em dilapidar o tempo, reclamando contra o destino e hospedando chorosas rebeldias, é forçoso reconhecer que só adquiriremos progresso e reconforto, quando largarmos queixa e azedume, concentrando esforço em melhoria e trabalho.
Rogamos: Senhor, dá-nos compreensão.
Se prosseguirmos, entretanto, censurando e criticando os outros, a descortinar faltas alheias, sem cogitar das próprias deficiências, é óbvio que só atingiremos a luz e a segurança do entendimento, quando nos voltarmos sinceramente para dentro de nós mesmos, verificando que somos tão humanos e tão falíveis quanto aqueles irmãos dos quais nos julgávamos muito acima.
***
Vamos, pois, meditar, fazer nossos pedidos com coerência e tentar agir como verdadeiros cristãos.

domingo, julho 08, 2007

sexta-feira, julho 06, 2007

Dois Temas Oportunos

Entro aqui, hoje, com uma excelente notícia:

A União das Sociedades Espíritas de São Paulo – USE (SP) realiza o 13º Congresso Estadual de Espiritismo entre os próximos dias 6 e 9 de julho de 2007, no Espaço Prisma Eventos/ UnG – Campus Dutra. O tema central será “Espiritismo 150 anos – unir para difundir”. Divaldo Pereira Franco fará a abertura oficial do congresso, hoje, sexta-feira, 6 de julho, às 20h. Informações e inscrições por e-mail: lggouveia@yahoo.com.


Além disso, ofereço meu espaço aqui a dois excelentes colaboradores do JORNAL DOS ESPÍRITOS - Leda Flaborea e Felinto Elizio Duarte Campelo que nos brindam com artigos interessantes sobre temas vitais para a compreensão da doutrina.


Reencarnar é VIVER

A ressurreição de Lázaro simboliza a reencarnação

Leda Flaborea

A volta de Lázaro à vida sob o comando de Jesus é uma das passagens mais conhecidas no Evangelho (João, 11: 1-46), e quem a conhece sabe que ela se apresenta em três fases distintas. Senão, vejamos:
Na primeira fase, temos o Mestre pedindo àqueles que o acompanhavam que retirassem a pesada pedra que tapava a cripta onde Lázaro estava sepultado. Na segunda, encontramos Jesus ordenando ao próprio Lázaro que acordasse e saísse. E, na terceira, que ele fosse desatado dos panos que cobriam seu corpo, costume praticado na época, e que fosse libertado. Em se tratando de Jesus não nos surpreende tal feito. Entretanto, precisamos ir um pouco mais além. O que, na verdade, representa Lázaro para nós cristãos e, sobretudo, para nós espíritas?
No nosso entender, à luz da Doutrina Espírita, a passagem evangélica conhecida como a ressurreição de Lázaro, pode representar a reencarnação – temos a chance de voltar em novo corpo para novas experiências planetárias – ou o recomeço, como uma oportunidade de nos libertarmos das angústias, remorsos, medos, imperfeições e viciações de toda ordem e quilate que permeiam nossa existência, ainda hoje. Tudo isso representa, afinal, os panos que nos cobrem os olhos e que não nos permite ver além da vida material. Cada um de nós já experimentou o sentimento de culpa – ainda hoje agasalhamos muitos -, seguido pelo arrependimento, remorso e o retorno ao caminho do bem. E, justamente, por já havermos vivido tal situação, entendemos o que significa recomeçar. Assim, quando Jesus trouxe Lázaro à vida, não lhe devolveu apenas o corpo perecível, mas libertou-o, também, dos seus enganos pretéritos a fim de que pudesse atender às novas experiências que teria, a partir daquele momento. Ao dizer “desatai-o e deixai-o ir” Ele o estava libertando de si mesmo, de suas culpas, para a nova vida. Lázaro, beneficiado com a moratória dos débitos acumulados em tempos passados, estava agora livre. Isso não é o processo reencarnatório? Isso não é recomeçar? Acreditamos que sim.
Somos, ainda, Lázaros nesta existência porque:
Primeiro - ainda nos conservamos presos a lembranças de culpas, inconscientes ou não, remotas ou não, que nos mantêm atados a situações que muitas vezes nada mais têm a ver com o que vivemos atualmente.
Segundo – cristalizamos em nossas mentes pessoas que em algum momento destruíram nossos sonhos e nossos ideais, que zombaram de nossas esperanças, que nos levaram à desilusão e ao abandono.
Quando permanecemos nesse estado mental, assemelhamo-nos a mortos – como Lázaro – na gruta de nossas recordações agoniadas que nos envenenam o corpo e o Espírito. E essa gruta representa, certamente, o orgulho, o egoísmo, os ressentimentos e mágoas que nos mantêm presos a velhas ilusões, que não morrem dentro de nós porque não permitimos que isso aconteça. Todas as vezes que nos lembramos, reavivamos antigas feridas. Nós as alimentamos, tornando-as nossas inimigas ferrenhas e inimigas que não nos dão tréguas. É preciso nos livrarmos delas! Emmanuel nos adverte que apenas esse gesto não é suficiente para nossa evolução. Necessitamos caminhar um pouco mais, irmos além. De que modo podemos fazer isso? Nos diz o Instrutor Espiritual que é preciso auxiliar essas criaturas para que elas também se soltem dos grilhões que as prendem às suas próprias culpas e remorsos. O caminho proposto por ele é o de não condená-las, não azedar seus sentimentos com cobranças e lembranças e o de libertá-las, através da caridade do perdão e do esquecimento. Ao agirmos assim estaremos permitindo a nós mesmos a possibilidade de um recomeço mais luminoso e feliz. Dessa forma, quanto mais rapidamente as libertarmos, mais rapidamente elas regressam ao caminho do bem e nós à independência. Retornemos à passagem evangélica: a pedra que nos impedia de sair para a luz, já foi retirada por amigos encarnados e desencarnados – hoje possuímos mais entendimento que ontem. Todavia, para acordarmos e sairmos da cripta na qual nos enclausuramos, muitos de nós ainda necessitam da ordem de Jesus no íntimo de nossas consciências para dar esse passo. Mas, isto não basta. Precisamos, agora, caminhar despertos e esclarecidos em direção ao amor do Pai, e para que isso aconteça o Mestre aguarda de cada um de nós a fidelidade aos seus ensinamentos, a renúncia definitiva às ilusões terrenas e a firme vontade na realização desse empreendimento evolutivo. Sem vontade firme e coragem de nossa parte para fazer o que deve ser feito, o convite de Jesus para que acordemos não se concretizará. Somos senhores do nosso destino e herdeiros de nossas escolhas.

Bibliografia
Xavier F.C./ Emmanuel – Palavras de Vida Eterna – lição 75
Xavier F.C./ Emmanuel - Caminho, verdade e Vida – lição 112
Peralva, Martins – Estudando o Evangelho – capítulo 43 – FEB Ed. – 6ª ed.

LEDA MARIA FLABOREA é pedagoga, expositora e articulista espírita, e-mail ledaflaborea@ig.com.br




Não à vingança

Felinto Elízio Duarte Campelo

“Não digas: Vingar-me-ei do mal; espera pelo Senhor, e ele te livrará”. (Provérbios 20:20)

A vingança é atitude característica das criaturas desconhecedoras da lei de causa e efeito, da suprema justiça divina que rege as relações entre os seres encarnados e desencarnados.
Superar-se nos momentos difíceis das provações, relevando ofensas recebidas, não revidando agressões sofridas, ignorando insultos e impropérios com paciência e com humildade, confiando-se à proteção de Deus, é próprio daqueles que batalham para romper os grilhões que os prendem à inferioridade espiritual, dos que procuram fazer lume em suas almas, dos que ensaiam os primeiros vôos rumo ao infinito.
Esperemos pelo Senhor e seremos libertados se soubermos usar com regularidade os remédios sabiamente prescritos por Jesus em seu Evangelho:
Para a dor da mágoa - esquecimento.
Para a asfixia do ódio - amor.
Para a febre da vingança - perdão.
Assim, livres de mais sofrimentos e de novos recomeços, poderemos dizer: Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de ânimo sereno e que já aprenderam a amar e perdoar.

FELINTO ELÍZIO DUARTE CAMPELO é escritor (autor de O PULO DO GATO - São Paulo: DPL Editora) e articulista espírita.

(Jornal dos Espíritos - o seu jornal espírita na internet)



Deixo-os agora na quase certeza de que vocês tirarão este fim de semana para ler esses textos, meditar sobre seu conteúdo e absorver a sua essência.
Fiquem em paz, com o pensamento sempre em prece.

terça-feira, junho 26, 2007

Te Ofereço Paz

É uma boa coisa a se oferecer. Vamos fazer isso juntos?

Considerações em torno de dois temas



Oil Paintings Classic Figures



Ah! tenho tantos artigos e poemas aqui, diante de mim que sinto dificuldade de escolher o que é mais interessante para compor este post de hoje. Como faz algum tempo que não falo de poesia, começo com um inspirado soneto de Leda Yara, nossa irmã de fé, que possui um generoso e belo repertório de poemas.

COM SEQÜÊNCIA
Lêda Mello
O dia nasce e assim chega a vida
voltando à Terra com jeito criança.
Sonhos infantis na cor da esperança,
feito balões na manhã colorida.
Sol do meio dia, minha juventude
alçando vôo rumo à liberdade.
Declina a tarde e a maturidade
ganha da vida ares de plenitude.

Que eu possa, quando a noite definida,
olhando além, na janela da vida,
sem mágoas, contemplando o meu passado,
partir serena, na grande viagem
levando, apenas, na minha bagagem
a luz do amor que eu haja semeado.
Arapiraca (AL) - Brasil, 20.06.2007
E mais:
Quero voltar a confiar

(içami tiba)


Fui criado com princípios morais comuns:
quando eu era pequeno, mães, pais, professores, avós, tios, vizinhos eram autoridades dignas de respeito e consideração.

Quanto mais próximos ou mais velhos, mais afeto:
inimaginável responder de forma mal educada aos mais velhos, professores ou autoridades.

Confiávamos nos adultos porque todos eram pais, mães ou familiares das crianças da nossa rua, do bairro, ou da cidade. Tínhamos medo apenas do escuro, dos sapos, dos filmes de terror.
Hoje me deu uma tristeza infinita por tudo aquilo que perdemos. Por tudo o que meus netos um dia enfrentarão; pelo medo no olhar das crianças, dos jovens, dos velhos e dos adultos.
Direitos humanos para criminosos, deveres ilimitados para cidadãos honestos. Não levar vantagem em tudo significa ser idiotapagar dívidas em dia é ser tonto; anistia para corruptos e sonegadores.

O que aconteceu conosco?
Professores maltratados nas salas de aula, comerciantes ameaçados por traficantes, grades em nossas janelas e portas.

Que valores são esses?
Automóveis que valem mais que abraços, filhas querendo uma cirurgia como presente por passar de ano; celulares nas mochilas de crianças.
O que vais querer em troca de um abraço?
A diversão vale mais que um diploma; mais vale uma maquiagem que um sorvete; mais vale parecer do que ser.

Quando foi que tudo desapareceu ou se tornou ridículo?

Quero arrancar as grades da minha janela para poder tocar as flores.
Quero me sentar na varanda e dormir com a porta aberta nas noites de verão.
Quero a honestidade como motivo de orgulho.
Quero a retidão de caráter, a cara limpa e o olhar olho-no-olho.
Quero a vergonha na cara e a solidariedade.
Quero a esperança, a alegria, a confiança.
Abaixo o Ter, viva o SER.
E viva o retorno da verdadeira vida, simples como a chuva, limpa como o céu de primavera, leve como a brisa da manhã e definitivamente bela como cada amanhecer!

segunda-feira, junho 11, 2007

Um Conto Espírita

Meio Escondido de Vanda Rodrigues
Olá! Tenho um conto hoje. Não me alongo para não reduzir a expectativa. A autoria é de Leda Flaborea, que contribui belamente com artigos, contos, poemas de sua lavra e poemas por ela psicografados.
Então, à leitura de:
RESSONÂNCIAS AFETIVAS - Um Conto Espírita
Eram dezenove horas e trinta minutos de uma segunda-feira. Nada, até aquele momento, fazia com que ela suspeitasse da mudança programada para sua vida. Entrava tranqüila em uma sala de aula de uma casa espírita que freqüentava há anos, no bairro onde morava. O curso que ia fazer já havia começado e por motivos pessoais não conseguira iniciar junto com a turma. A expectativa em qualquer início de atividade de estudo é sempre normal. Quem seria o expositor? Entrou calma. Ele estava de costas. Cumprimentou-o com um alegre "olá" e ele virou-se. Dois profundos olhos azuis a fitaram e, como se um furacão lhe varresse a mente, se perguntou: "De onde o conheço?" Tinha certeza absoluta de nunca tê-lo visto, pois certamente não esqueceria aqueles olhos. E ele sorriu. A fisionomia se completava e ao invés de serenar seu coração parecia, naquele momento, que o mundo parava.
O tempo se encarrega de apagar lembranças que desejamos, mas também se encarrega de nos colocar novamente na mesma ciranda para que aprendamos a rodar juntos, em uníssono com o Universo. E ali estava ele, colocado diante dela sem que um soubesse qual lembrança estava acontecendo na mente do outro. A imagem de hoje esvaneceu-se e à sua frente surgiu, como em imensa tela de cinema, o púlpito majestoso e nele a inconfundível figura de Monsenhor Renard. Parecia que todo poder e toda glória da Igreja se resumiam naquele homem. Quando falava, suas palavras percorriam a imensa nave, envolvendo cada um que ali estava.
A jovem Stella se sentia pequena, frágil e absolutamente impotente diante daquela fortaleza. Ele a dominava somente com o som da sua voz. Que poder era aquele que lhe tirava suas forças e não a deixava raciocinar, ponderar, e buscar em Deus o fortalecimento necessário para fugir daquele jugo? E que Deus era aquele que não afastava de sua vida aquele homem? Como era difícil para ela cumprir seus deveres cristãos, pois não conseguia paz para isso! Sedução era a palavra que ela não conseguia pronunciar, mas era a que traduzia, sem sombra de dúvida, o que acontecia com ela. O pregador silencia e ela se deixa ficar onde está. Estática.
A nave central se esvazia e ela sequer dá-se conta disso. Quando quis se levantar u'a mão estendida lhe ofereceu apoio. Era Monsenhor Renard. Olhar profundo, envolvente, cravando em seu coração (...) Ele vinha buscá-la a fim de, mais uma vez, tê-la sucumbida em seus braços. Dois amantes ensandecidos, vítimas de seus próprios desejos. Ela, sem poder dizer não, sem conseguir resistir; ele, não querendo abrir mão de seu poder de sedução. Conhecia seu poder sobre ela. Sabia do seu poder sobre todos.
Corações enfermos, em mentes desarvoradas, trazem sofrimento para si próprios e o espalham ao seu redor, envolvendo a todos que lhes cruzam o caminho ou que partilham com eles a jornada evolutiva. Paixões incontidas, levando a desatinos e permitindo sintonias de baixo padrão vibratório atraem, sem pudores, entidades que gravitam na mesma atmosfera fluídica. Viciações, desequilíbrios, abandono, a busca da morte como saída daquele inferno. No horror da vilania sofrida, envolta no ódio da humilhação sentida, e no abandono de quem não tem na vida a não ser o objeto amado, de quem não se vê, de quem não se ama, de quem não se sente como individualidade, precisando gravitar ao redor de outrem para ter um objetivo, Stella pôs fim a uma existência que poderia ter sido proveitosa e benéfica para si e para os outros.
Sentimento de ódio e desejo de vingança nortearam a vida desse Espírito durante dezenas de anos. Mas, a bondade de Deus nos concede inúmeros recursos de reabilitação e de fortalecimento para isso. O tempo, correndo célere, é nosso aliado e a benção do esquecimento nos alcança quando somos solicitados a retornar à experiência terrena. Encontros e reencontros se sucedem e assim vamos aprendendo a valorizar a vida e as oportunidades de trabalho para nosso crescimento.
A imagem antiga se apaga e a figura do expositor volta a ocupar a sua visão. Num átimo de segundo ela compreendeu. Mas e os sentimentos antigos, onde ficaram? O que aconteceu para que hoje, ela não os sentisse mais? Coração acelerado, a tentativa de disfarçar o que estava acontecendo, o receio de ser pega nessa inquietação, mas principalmente o temor de que ele também se lembrasse, fizeram com que lentamente retornasse à serenidade. A Natureza não dá saltos e, assim, só nos é dado conhecer o que podemos compreender.
Apresentações, votos de boas vindas, companheiros de curso chegando, tudo isso propiciou um retorno ao equilíbrio dessa criatura verdadeiramente perplexa diante do que acabara de vivenciar. Novos conhecimentos, estudos mais profundos, vão nos dando as condições de melhor entendermos o que nos acontece e o que acontece ao nosso redor. O que parecia anormal, milagroso ou sobrenatural, nos surge agora como normal, pois que faz parte das leis naturais. E, apesar de toda lembrança experimentada, ele era, naquele momento, o único homem a quem ela confiaria seu coração.
Semanas se sucedem e a camaradagem toma conta de todos naquela sala. Tempo produtivo de aprendizagem e esclarecimentos. Oportunidades benditas de colocar em prática o que se aprende vão surgindo a cada dia na vida de todos. Uma aparente confiança entre ela e o expositor parecia prenunciar que tudo estava muito bem.
Um dia, companheiros de classe descobriram a data do aniversário dele. Natural alegria tomou conta de todos e, tal qual alunos querendo agradar o mestre, preparam para ele festa surpresa. Alegria, risos, abraços amorosos de quem é grato a alguém que se afasta do aconchego do lar, e que vem abnegadamente ajudar os que buscam aprender. Ela também se aproximou para abraçá-lo e, ao fazê-lo, viu o medo que aquela aproximação física causava a ele. O coração dele acelerou e gentilmente a afastou. Ignorava ele o porquê da sua atitude, o que lhe causara temor. Não era dado a aventuras amorosas, mas o quê o levou a afastá-la de si? O gesto o agradou! O contato físico acalentou seu coração naquele momento. O que estava acontecendo com ele?
A noite, amiga silenciosa, nos surpreende muitas vezes com lembranças as quais nem nos apercebemos estarem em nossa mente. Veladas, silenciosas, vão chegando lentamente a esse coração inquieto. Armand. É esse seu nome. Antes, Renard. Um professor pacato e tímido. Uma praça , e no meio dela aquela mulher brilha. Dança, canta e representa com o grupo de artistas mambembe que recolhe da caridade alheia, em cada cidade que se apresenta, o seu sustento. Naquele momento, para ele, o tempo parou. Pela primeira vez aquele pacato homem sentiu que estava vivo e a única coisa que desejava era estar para sempre ao lado de Teresa. Antes Stella.
Os companheiros partiram maldizendo a perda daquela que na verdade era a responsável pela existência do grupo. Não que fossem talentosos, muito pelo contrário; mas, a beleza e a força sensual de Teresa dava a eles sempre o que comer durante alguns dias, após cada apresentação. Como a maioria das mulheres, a artista queria apenas ser mulher. O abandono do grupo foi inevitável. O casamento com Armand, a alegria dos primeiros tempos, a tristeza dos filhos que não vinham, os cuidados com a casa, a monotonia, as dificuldades financeiras. O viço da vida despreocupada, que antes atraia muitos homens, começa a dar os primeiros sinais de desaparecimento. Teresa amava seu marido, mas a preocupação dele era sempre com seus alunos, como se ele precisasse conduzi-los, constantemente, ao caminho reto. Armand sentia uma espécie de remorso, de culpa, que não entendia, em relação a todos seus alunos e, por incrível que pareça, também por Teresa. Daí realizar todos os seus desejos. Mas ela queria mais.
O Espírito dela se inquieta. O desejo de novidades, de quem percorre o mundo na alegria da vida irresponsável, começa a tomar conta de sua mente. Mas, ela ama seu marido e sabe que ele também a ama! Onde a razão dessa insatisfação? Por que esse amor não a alegra mais? Por que esse desejo de ir além, mesmo sabendo que pode feri-lo moralmente, magoá-lo?
Sintonizamos sempre com o que nos afinamos. E outros homens chegaram na vida de Teresa. Presentes que ela dizia ter recebido de amigas. Jóias que escondia para não serem vistas. Armand sabia, pois conhecia sua mulher; mas também a amava e sobretudo se sentia culpado por ela ter mudado assim. E essa sensação de culpa que nunca o abandonava fazia com que a perdoasse sempre. Ele tinha certeza que um dia ela voltaria para ele e que poderiam ser felizes, um ao lado do outro.
O sobressalto, o corpo molhado, a respiração ofegante. Assim ele acorda como que saído de um turbilhão. As idéias parecem não ter lógica e ele demora longos minutos para retornar ao domínio de sua mente. Minutos demorados e benditos que permitiram àquele coração inquieto compreender a razão do seu medo. A lembrança do passado chega a ele, agora, com toda força e com todas as emoções que acompanharam os fatos. Sabia de Renard e Armand, não ignorava mais Stella e Teresa, todos personagens vivos de vidas vividas e sofridas. Mas, bendita seja essa dor que proporciona crescimento, quando podemos aceitá-la como forma do Amor de Deus às Suas criaturas.
O conhecimento que vamos adquirindo a cada experiência vivida nos faz entender que nada dá saltos. Cada etapa da evolução espiritual que experimentamos nos conduz com segurança para a seguinte. Assim, mais preparados e mais atentos, vamos cumprindo todas elas, queiramos ou não. Como vivemos, assim morremos. O tumulto que criamos dentro de nós acaba sempre nos levando a desligamentos corporais de grande dor. Respiramos a mesma atmosfera aqui e lá. Espíritos renitentes insistimos em continuar ignorando as leis amorosas que nos regem a conduta. Tateamos, qual cegos, na busca de sentir o que nosso Espírito materializado procura, através do corpo. E, sem condutor seguro, nos perdemos, quase sempre, em labirintos tortuosos que não nos permitem enxergar a saída .
Segunda-feira, dezenove horas e trinta minutos. Ela entra na sala. É sempre a primeira a chegar. Pela primeira vez, durante tantas semanas, ele não aparece. Um substituto é enviado para continuar os trabalhos. Nós paramos, o Plano Espiritual não.
A busca de ajuda através do Evangelho de Jesus e o conforto da prece realizam milagres dentro de nós. Nos fortalecemos para os embates que nos chegam a cada momento e a Misericórdia Divina se faz presente em nossas vidas através do sono reconfortante. Espíritos libertos buscam encontrar afins. Amigos Invisíveis conduzem esses dois corações ao encontro tão necessário. Lágrimas, sorrisos, e o abraço amoroso sem medo unem as duas almas. Compromissos anteriores se cumprem e o amor desvairado e egoísta, que tanto sofrimento lhes trouxe, surge transformado sob a forma de perdão e esquecimento das faltas. Todo amor sublimado resplandece no trabalho do Bem, e espalha ao redor daquele que ama uma atmosfera de paz e confiança que não se consegue esconder. Sempre foi assim e para sempre será. A capacidade de perdoar de cada um é muito maior do que sua vontade de colocar em movimento essa usina de amor.
Segunda-feira, dezenove horas e trinta minutos. Ela entra na sala. É sempre a primeira a chegar. Ele lá está, de costas. Um alegre "olá" o obriga a voltar-se. Seus olhos se encontram. Nada os perturba. O tempo não parou, o coração não acelerou. Apenas paz e entendimento habitam aqueles corações. Eles voltaram a estar juntos, caminhando a mesma estrada, buscando o mesmo fim. Um amor imenso os une agora, para sempre, porque verdadeiro. Ela entrega a ele um livro com delicada dedicatória: "Querido irmão, tenha certeza de que estamos juntos por uma razão muito forte: auxiliar o próximo, pelo amor de Jesus. Um abraço fraterno e muita paz." Não havia assinatura, não havia endereçamento. Que nomes colocaria? Armand estava certo. Um dia estariam juntos, para sempre.

LEDA MARIA FLABOREA ledaflaborea@uol.com.br
(Publicado no Jornal Espírita de Agosto de 2006 - órgão informativo da Federação Espírita do Estado de SP).